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NÃO SOMOS TODOS PORTUGUESES?! Jose M. Raposo
Eu não acreditei no que os meus olhos viam quando abri um envelope o qual continha os “Bylaws of the Portuguese Fraternal Society of America” e o “Agreement and plan or merger by and among”, I.D.E.S., S.E.S., U.P.E.C., e U.P.P.E.C..
Quantas vezes eu já escrevi no jornal e, publicamente, me manifestei que já há muitos anos deveriam ter acabado com esses “Pipis”?! Vasculhei os meus artigos, que mando para o Tribuna, e a 15 de Agosto de 2006 escrevi o seguinte:
“...Senhores membros do “board of directors”, são vocês que têm as rédeas nas mãos e são os membros que têm a última palavra. Não se deixem levar por pessoas que estão em posição de destaque e pensam que sabem tudo. Senhora liga das sociedades, faça uma reunião e veja se convence os membros a acabarem com esses “Pipis” todos que há por aí, pois muitos deles já nem piam. Façam uma única organização, da qual possamos ter orgulho. Vocês não se lembram do célebre anúncio, dum comprimido, lá nas emissoras radiofónicas das nossas ilhas e que começava assim: - “ A união faz a força?”
Comecei a ler os “Bylaws” e encontrei logo, na primeira página, algo que discordo. Não me vou pronunciar pormenorizada e publicamente sobre o assunto, mas, deixo um alvitre a quem de direito, para analisar quais e a favor de que etnias vão ser promovidas as actividades. Ao fim e ao cabo, como o nome indica, será uma Organização Fratenal Portuguesa.
Continuei a leitura e encontrei algo mais que, penso eu, é contra a lei que rege as sociedades fraternais: a escolha do Secretário e Tesoureiro da sociedade.
Eu pergunto: estamos ou não numa democracia? Como é que os directores vão dar o poder ao CEO para escolher o Secretário e o Tesoureiro? Não será poder demais para uma só pessoa? Será que a ditatura vai continuar?
Mais à frente, há um artigo sobre o Conselho Supremo e os seus directores que, na minha opinião, de acordo com os estatutos, não passarão de verbos de encher, pois que os mesmos não terão voz activa na supervisão ou autoridade dos negócios da sociedade.
Conclusão, terão um título e trabalharão para outros encherem os bolsos. Se for esse o caso, posso afirmar que a Portuguese Fraternal society of America, será uma estátua com pés de barro e não conseguirá sobreviver ao mais pequeno movimento da falha de Santo André, a não ser que a Luso-American, depois, consiga levantar os escombros e assim ficaremos com uma só organização, mais forte e, talvez, mais capaz de poder enfrentar a concorrência do mercado americano.
Louvo quem teve a ideia de dar um subsídio a um membro que seja orfão de pai e mãe e que tenha menos de 21 anos de idade. A quantia monetária não é grande, mas ajudará.
Claro que estes estatutos terão de ser votados e, penso eu, ainda serão analizados antes de serem aprovados. Tenho a certeza de que os indivíduos responsáveis por essa fusão são pessoas competentes e devem ter advogados experientes para os aconselharem, a fim de que tenhamos uma organização da qual possamos nos orgulhar.
Talvez haja por aí, ainda, algum “pipi”, que agora é galo careca, e nem para canja serve, que não gostará dessa união, mas, “ todo o perú tem o seu Natal.”
Espero que as nossas Irmandades do Espirito Santo e outras agremiações e clubes que por aí temos, incluindo Filarmónicas, que pensem bem e que sigam o exemplo das Fraternais. Não faz sentido algum haver quatro ou cinco organizações tão perto umas das outras, cujos membros são, praticamente, os mesmos. Vamos nos esquecer que somos de São Miguel, da Terceira, Pico, Faial ou outra ilha qualquer e vamos nos unir por cidade ou por condado para que, juntos, possamos ter mais força. Ao fim e ao cabo, não somos todos Portugueses?!
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TAPETE VERMELHO (para tua eterna procura) Elen de Moraes
Ó tu, que te entorpeces Com a bebida dos sonhos destilados Nas longas vigílias da alma... Com os desejos mirabolantes Do teu inconseqüente coração... Com os pesadelos Das tuas desestruturadas emoções... Com as insônias da vida... Desadormece!
Pisa no chão da tua realidade, Nesse chão batido pelas tuas incertezas, Nesse tapete vermelho de terra firme, Derramado à tua frente Para amortecer as passadas Do teu desencanto. Esse chão de terra molhada Pelo gotejar das tuas lágrimas, Pela queda do teu pranto magoado, Pela chuva da tua desesperança, Pelos desencontros E pela solidão - Essa tua amante de todas as épocas -
Pressente nos gemidos, No farfalhar das folhas caídas Que sucumbem ao peso da tua insatisfação, O amor que se despeja à tua passagem, A paixão que se incendeia à tua volta, A sensualidade que acede à tua essência, A vida que te renasce... Descansa a fadiga da tua eterna procura Na posteridade do meu amor... Asperge sobre esse chão, Sobre esse tapete de terra no cio, A desilusão das tuas fantasias, O orvalho da tua inspiração, O desassossego dos teus versos! O harmonioso canto das tuas poesias.
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Ó Pai, ainda há salsichas? Jose M. Raposo
- Não Michael - respondi. - Vamos matar outro porco este ano? - Não sei. Vou falar com o Tony para me comprar um e veremos. Peguei o telefone, chamei o Tony e disse: - O meu filho quer fazer matança este ano outra vez. - Não há problema, diz o ele. Vou comprar o porco e engordá-lo à minha maneira. Se ele assim disse, assim o fez. E no dia combinado o Tony mais o Marinho chegaram com o porco à minha casa, cortado em quatro bocados, com o sangue, o fígado e os demais órgãos, para que se pudesse fazer uma molha. Alem disso trouxe uns quantos galões de vinho da sua lavra e, diga-se em abono da verdade, o único defeito que o vinho tinha é que se evaporou rapidamente. No dia anterior, havíamos picado a salsa e as cebolas e estava tudo em ordem. Começamos a cortar a carne e o Marinho pegou nos lombinhos e com pimentões e cebolas fez uma marinada que depois foi ao churrasco e estava saborosíssima. Como já disse várias vezes, depois dos meus 10 anos, vivi em casa de minha madrinha que era de Santo Amaro do Pico. Em Santo Amaro e numa grande parte do norte da ilha, faz-se uns enchidos a que dão o nome de salsichas. Usa-se as entrebanhas e mais pedaços de carne que ficam a tomar gosto durante dois dias, numa vinha de alhos que é feita com limão, sal, alho, pimenta malagueta e vinho branco. No dia de encher, leva-se ao lume um pouco da vinha de alhos, para entalar a cebola (verde picada). Depois de entalada, deixa-se escorrer e junta-se a salsa bem picada. Mistura-se tudo e acrescenta-se raspa de limão, canela, Jamaica, colorau e água-ardente. Amassa-se tudo muito bem, enche-se e põe-se no fumeiro. Normalmente, é servida frita com inhames. Esta receita é da Senhora Albertina, da Prainha de Cima, da Ilha do Pico Tanto meu filho como eu, só não fazemos salsichas dos ossos porque não é possível. De tudo do porco é o que mais gostamos. Fizemos também morcelas que, como sabem, leva sangue de porco. A Estela e a Eduarda, amigas nossas, talvez por acharem que não havia sangue bastante, resolveram cortar-se num dedo. O Décio, lá colocou um penso na ferida, mas, o sangue não parava. Então lembrei-me que nas ilhas usávamos teias de aranhas para estancar o sangue. Fui com a Estela ao pombal e limpei as teias dos barrotes, coloquei-as na ferida e o sangue parou de correr. Pena que ela não tivesse se cortado nos dedos todos, pois que o pombal teria ficado completamente limpo. As morcelas foram cozidas e depois fritas. Para falar a verdade não sei quem as temperou, o que é certo é que a Helena, esposa do Décio, gostou tanto ao ponto de dizer que nunca havia comido tão saborosas. Fizemos bifanas com os lombos. Torresmos com carne das pernas e das mãos. Com parte do sangue, fizemos debulho, sarrabulho ou sarapatel como outros chamam. As costelas estão congeladas para que um dia destes se façam o que chamamos torresmos de caçoila. São temperadas com vinha de alhos durante três dias e depois leva-se ao lume, dentro de um tacho a derreter. Um lugar onde o Tony Carvalho esteja, tem que haver cantoria ao desafio. Ele mais o Abel e eu, acompanhados pelo Marinho ao violão, começamos a cantar. No entanto, o Tony tinha tanta vontade de cantar com o Abel que mandava-me sentar e eu como sou desafinado, sentei-me mesmo, deixando-os à vontade. Em algumas vezes as cantigas foram mais picantes do que a pimenta que usamos para temperar a carne, mas isso faz parte da festa. Tudo correu às mil maravilhas e já estou a escutar o meu filho, daqui a uns meses, a perguntar: - Ó pai, ainda há salsichas?
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DESCULPA. TENS RAZÃO. Jose M. Raposo
Era uma manhã, como tantas outras, em que o meu filho se preparava para ir para a escola. Tinha ele 12 ou 13 anos. Havíamos tomado o pequeno-almoço. Com a mochila dos livros às costas, preparava-se para sair quando notei que ele tinha uma meia preta e outra branca. Perguntei: - “Que diabo é isso Michael?” -Isso o quê? Pergunta ele. -Isso de estares calçando uma meia preta e outra branca. -Olha, olha! O pai agora é que deu por isso? Eu já venho vestindo estas meias há pelo menos um mês. -Tu não sais de casa dessa maneira. Vai já ao teu quarto e muda de meias. -Essa é boa. O pai andou a dormir na forma durante um mês, acorda agora e diz que eu não vou para a escola desta maneira. -Não vais, não. -Vou sim. E a discussão começou-se a acender. Eu, infelizmente, tenho o raio do costume de falar alto, não sei se é por não ouvir bem ou se é mesmo um defeito de fabrico que, por mais que eu tente, não consigo resolver. A minha mulher entra na discussão e diz que não vê mal nenhum por ele calçar uma meia branca e outra preta. Agora tinha duas pessoas contra mim e a coisa não estava a ficar bem. Eu dizia que era eu quem mandava nele e, portanto, tinha que calçar meias iguais. A mãe dizia que também mandava e que, portanto, não era necessário mudar as meias. A coisa continuava a azedar e o tempo a passar. Eram horas de irmos para o trabalho e ele para a escola. E nenhum de nós vacilava. Sem mais nem menos o Michael atira com a sacola ao chão, dirige-se à sala de estar e começa a abrir as portas de um armário e a tirar coisas para fora. Álbuns de fotografias, livros, etc., etc.. E ele só dizia: -Tem que estar aqui porque eu já vi. -Oh, homem! Que diabo é que procuras? -O pai já vai ver assim que eu achar. -E o pai ainda é que vai por estas coisas para trás no seu lugar. Essa agora! O raio do rapaz a dar-me ordens. Estava a fazer um salseiro com aqueles álbuns todos e eu ainda é que teria de colocar tudo no seu lugar. -Tu estás é mesmo maluco disse eu. -Maluco?! O pai vai ver quem é que está maluco. A minha mulher já não dizia nada. Até, se me recordo ela foi embora para o trabalho e ficamos eu e o Michael na discussão. E os álbuns a voarem de um lado para o outro, até que ele mostrando uma fotografia de um rapaz com os seus 18 anos me pergunta: -Quem é esta pessoa nesta fotografia? -Sou eu – respondi. -E o que é que o pai faz vestido com umas calças com uma perna vermelha e outra preta? E ainda por cima na perna vermelha tem bolsos pretos e na preta bolsos vermelhos? -Eu posso explicar. O pai explica isso mais logo quando eu vier da escola, porque eu já estou atrasado E, sem mais nem menos, saiu pela porta fora. Quando trabalhava no escritório do Armazém Canadá, num determinado ano, pelo Carnaval, pedi ao alfaiate que me fizesse o tal par de calças. Claro que os usei, também, sem ser pelo Carnaval. Quando o meu filho chegou da escola, disse: -O pai que explique agora! Eu só respondi: -Desculpa... Tens razão! |
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Ouro negro...
Elen de Moraes
Ainda vivemos a “era do petróleo”, mas dois fatores nos colocam diante de questionamentos sobre a sua durabilidade: as reservas naturais que se esgotam e a poluição ambiental crescente, que ameaça toda humanidade. George Bissel, por volta de 1853, em visita à sua terra natal, quando ao passar pelo oeste do Estado da Pensilvânia, ao ver o “óleo de pedra” borbulhando nos mananciais ou jorrando das minas de sal, não poderia imaginar que aquele produto seria, num futuro bem próximo, a riqueza para muitos povos e motivo para tantas guerras. Mais tarde, ao visitar sua antiga faculdade, O Dartmouth College, viu o mesmo “óleo de pedra” numa garrafa, em cima de um armário, na sala de um professor. Era conhecido, também, como “óleo de Sêneca”, em homenagem aos índios da região, que transmitiram aos brancos a sua utilidade como remédio. Bissel que era professor e advogado em New York, falava muitas línguas, tendo um faro excepcional para os negócios, sabia que aquele líquido negro era inflamável e poderia ser utilizado como iluminante. Havia outros produtos utilizados para esse fim, mas, ou eram caros e escassos ou, os mais baratos, faziam muita fumaça. Ele conseguiu investidores, convencendo-os da descoberta rendosa. Contratou um renomado professor de química, da Universidade de Yale, para fazer as pesquisas. Os resultados foram favoráveis: o óleo poderia ser refinado, obtendo um subproduto de altíssima qualidade como iluminante. Foi criada, então, a Pensylvania Rock Oil Company e logo em seguida surgiu a primeira dúvida: haveria óleo suficiente para o ambicioso projeto ou eram apenas gotejamentos das fendas subterrâneas de carvão? Bissel procurava respostas e ao ver a propaganda de um remédio à base de petróleo, num cartaz que mostrava torres de perfurações para encontrar sal, onde o petróleo acabava aparecendo (uma técnica desenvolvida pelos chineses havia mais de um século e meio, importada pela Europa e depois pelos Estados Unidos), vislumbrou o uso da mesma técnica de perfuração, só para o petróleo. Surgiram tantas dificuldades, acertos e desacertos, que todos achavam que ele e seus companheiros estavam loucos. Entretanto, em 1859 o petróleo jorrou, dando inicio a uma agitação como a da corrida do ouro, na Califórnia. Nascia a “luz da Era”. Porém, quando em 1882, outro americano (Thomaz Alva Edson) descobriu a lâmpada elétrica e essa nova descoberta se transformou numa ameaça ao império do petróleo e com ele o futuro da “Standard Oil”, então a maior empresa do mundo, fundada por John D. Rockfeller, uma outra descoberta veio salva-lo: “a carruagem sem cavalos”, o nosso automóvel! Os campos de petróleo se espalharam pelo mundo e o resto da história é sobejamente conhecido. Acredita-se que desde o ano 5.000 AC, o betume (também conhecido como asfalto), substancia natural, lodosa, semi-sólida, rica em carbono e hidrogênio, que vinha à superfície através das fendas, era usado como argamassa nas construções da Babilônia, na muralha de Jericó e até no processo de mumificação, no Egito, como poderosa arma de guerra, já que nos relatos de Homero falam de ataques a embarcações com bolas de fogo, que não podiam ser apagadas. Relato parecido é feito quando Ciro, rei da Pérsia, ataca a Babilônia. Mas foi na China, por volta do ano 200 AC, que ao escavarem poços em busca de sal, descobriram óleo e gás. Marco Pólo faz referencia ao uso de “pedras negras” que são queimadas como se fossem pedaços de madeira, ou seja, o carvão mineral. Relata, ainda, ao passar pela Armênia e na fronteira com a Geórgia, uma grande fonte da qual saia um “licor” semelhante a óleo e tão abundante que podia carregar 100 navios de uma só vez, que servia para a queima e para untar camelos, protegendo-os contra doenças. Na Europa, só a partir da idade media se tem noticias de poços cavados manualmente por camponeses. A técnica do refino chegou com os árabes, mas era usado como panacéia por monges e médicos. No Brasil, a história do petróleo começou por volta de 1858. Um decreto permitiu a extração do mineral betuminoso para fabricação de querosene e só oitenta anos mais tarde o petróleo passou a jorrar em Lobato, na Bahia. Em 1954 foi criada a Petrobrás, a estatal que colocou o nome do Brasil no cenário mundial do petróleo. No cenário offshore, a Bacia de Campos, descoberta há 30 anos, atualmente a principal província petrolífera do Brasil, divide-se por 64 plataformas com suas usinas termoelétricas com capacidade para gerar energia para iluminar uma cidade com um milhão de habitantes. Possui cerca de mil poços interligados, 4.200 quilômetros de dutos no fundo do mar, com 120 embarcações de apoio, sendo 10 navios e 110 rebocadores. Com área de cem mil quilômetros quadrados, o complexo da Bacia de Campos já pode ser visto até por satélite, no litoral brasileiro, tamanha a concentração de luz. É uma cidade em alto mar com população flutuante em torno de 40 mil pessoas, que se deslocam da terra para os navios e plataformas, num vôo de helicóptero que dura uma eternidade se formos pensar nos riscos que ele envolve. Durante todo o translado só se vê a imensidão do mar até se distinguir na linha do horizonte as dezenas de plataformas com a chama acesa de suas torres de segurança. Mas essa é outra história que será contada numa nova oportunidade.
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